Há mais ou menos 27.000 anos, no período histórico conhecido como Paleolítico Inferior – também chamado de Idade da Pedra Lascada – os grupos humanóides, também nomeados como “trogloditas” ou “homens de neanderthal” habitavam em cavernas e organizavam-se em pequenos bandos nômades, caçadores e coletores. Esses humanóides andavam nus, e ao longo do processo evolutivo passaram a andar seminus, cobertos com peles de animais enroladas ao corpo e amarradas por tiras de couro.
Entre 25.000 e 15.000 a.C. situa-se o período Paleolítico Superior – também chamado de Idade da Rena (devido a importância desse animal para a sobrevivência dos grupos que habitavam o continente Europeu). Da rena aproveitavam a carne, os ossos, os chifres e a gordura. Os grupos ainda continuavam nômades, habitando as cavernas, nas quais registraram em suas paredes as primeiras imagens de seu estágio sociocultural. Nesse período, já dominavam a produção do fogo.
Em relação à “vestimenta” (entre aspas pois ainda não é considerada como tal), as peles dos animais enroladas ao corpo eram usadas de forma desordenada e à medida que secava, elas endureciam, o que ficava quase impossível dar-lhe forma. A maneira mais simples encontrada por eles foi a mastigação, método usado ainda hoje pelas mulheres esquimós.
Por volta de 15.000 e 10.000 a.C., instaura-se o período Neolítico – também conhecido como Idade da Pedra Polida. Nessa fase, os grupos humanos deixam o nomadismo e se tornam sedentários, praticando os rudimentos da agricultura e do pastoreio. Domesticam animais e plantas, constroem palhoças, armas feitas em ossos, vara e pedra, e já possuem uma organização social mais definida.
A arte pictórica do Neolítico conserva os mesmos moldes temáticos do período anterior, com suporte em paredões e paredes de cavernas, mas já com notável evolução nos traços e nos relevos, que incluem gravações em ossos e pedras. Também passam a cozinhar a argila e a produzir peças utilitárias em cerâmica, decoradas com desenhos de linhas abstratas e formas inspiradas na fauna e flora, além de pequenas esculturas em pedra e em madeira.
Nas regiões frias ainda se cobriam com peles de animais, porém dessa vez com certa inovação técnica obtida através de uma fervura feita com folhas de salgueiro ou carvalho, da qual se extraia o ácido tânico, deixando as peles mais flexíveis e por isso mais ajustáveis ao corpo. No mesmo período, surge outro avanço tecnológico de extrema importância: a agulha de mão, que era feita de marfim de mamute, de ossos de rena e até mesmo de presas de leão-marinho. Com a agulha tornou-se possível costurar pedaços de pele e moldá-los ao corpo, dando início ao que chamamos de modelagem (mas não como a conhecemos hoje). Com as pedras faziam os instrumentos de corte.
A primeira fase do período conhecido como Idade do Bronze, situa-se entre 10.000 e 5.000 a.C., e apresenta uma significativa evolução tecnológica, principalmente na metalurgia, com a substituição dos antigos materiais como os ossos e pedras pelo bronze, cobre, e mais tarde pelo ferro. Produzem-se grandes construções em pedra (megalitismo), dispostas ordenadamente e usadas geralmente para ritos místicos, tais como os vestígios encontrados em Stonehenge (Inglaterra). É a nova forma de arte que surge: a arquitetura.
Na fase seguinte da Idade do Bronze (entre 5.000 e 3.000 a. C.), a arte deixa de ter um propósito essencialmente utilitário e passa a ser representativa. O ser humano passa a simbolizar, e é nesse instante que a arte assume a sua condição midiática, isto é, usada para exprimir idéias e valores (significados) através de símbolos (signos, sinais). Nesse momento, a indumentária passa a ser um suporte artístico que expressa valores, hierarquias, poderes e idéias através de sinais: materiais, adereços, cores, grifos e demais elementos, tais como cocares, colares, coroas, cetros, etc.
Falando nisso, em Abril de 2004 cientistas fizeram uma descoberta intrigante: na caverna sul-africana de Blombos, perto da Cidade do Cabo, foi encontrado partes do que se acredita ser um colar de 75.000 anos! As 41 conchas, possuem tamanhos aproximados e furos no mesmo lugar, o que sinaliza um momento cultural importante da Pré-História. “A arte e a ornamentação pessoal são inquestionáveis expressões de simbolismo que se equipara com o comportamento do ser humano moderno”, afirmaram os cientistas com a descoberta.
A descoberta desse colar nos conduz a pensar que o adorno antecede a roupa, mostrando a importância dos ornamentos frente à indumentária. O que se vê ainda hoje em tribos indígenas e africanas é a riqueza dessas peças em relação à própria vestimenta, muitas vezes ausente. Muito mais do que a roupa, o adorno traz o elemento de afirmação pessoal, que pode ser lido como distinção de classes, hierarquias, diferenças entre gênero, etc.
Outra importante descoberta para enriquecer o conhecimento sobre o tempo das cavernas é o “Homem do Gelo”. Batizado pelo nome de Ötzi, os restos mortais congelados foram encontrados por um turista alemão em 1991, na fronteira montanhosa entre Itália e a Áustria, Alpes do Tirol, na região chamada Vale de Otzi (ou Oetzi), que emprestou o nome à múmia. A descoberta foi de extrema importância, pois além se tratar de um achado de 5.300 anos de idade, tanto o corpo quanto os objetos com ele encontrados, como vestuário e utensílios estavam em inigualável estado de conservação. Cientistas de todo mundo mobilizaram-se para extrair do cadáver o máximo de informações sobre a vida do homem primitivo da Europa Neolítica.
Todas essas descobertas, pesquisas e estudos só nos levam a perceber que o conhecimento está sempre em processo de mudança. A sabedoria humana ainda é limitada, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos. Mas, uma coisa é certa: a curiosidade inerente ao homem ainda nos renderá grandes transformações no mundo, sejam elas boas ou ruins. No próximo post, ilustrarei a pré-história com uma das obras cinematográficas mais fiéis que abordaram o tema, analisando o figurino e a transformação dos atores.
Referência: LAVER, James. A Roupa e a Moda – uma história concisa. 9ª ed. Tradução Glória Maria de Mello Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.






